ídolos                  Maurinho, o filho pródigo      Dia 25 - fev 09

 

Revelado pelo Paulista de Araraquara disputou a Copa de 1954

O garoto que nasceu na casinha simples da Rua Voluntários da Pátria, número 606, no bairro São José, em Araraquara, em 6 de junho de 1933, lembra a parábola do filho pródigo. Filho de Marcílio Raphael e Mercedes Montagna, o casal de agricultores que se mudou para Araraquara nos anos 30, Maurinho escreveu seu nome nos degraus da fama longe da Fonte Luminosa. O craque foi esbanjar seu talento com a bola nos gramados do mundo. Pisou na Fonte Luminosa atuando, do lado do inimigo, com a camisa do São Paulo.

O garoto calça chuteiras e faz três gols em Oberdan Cattani
Mauro Raphael, o Maurinho, trabalhou de engraxate no centro velho de Araraquara, onde hoje é a Lotérica A Favorita, batia bola descalço num campinho de terra batida, no Bairro São José. Sua habilidade com a bola era comentada e os dirigentes do Paulista FC lhe deram uma chance. O Palmeiras se apresentou no Estádio Municipal Siqueira Campos para um amistoso, em 1948, contra o Paulista. O experiente Oberdan Catani levou três gols daquele veloz ponta.

"Me lembro perfeitamente o garoto calçou chuteiras pela primeira vez e em questão de segundo aparecia cara a cara comigo vindo lá da intermediária, tomei três e quase perdemos o jogo", diz Oberdan, na festa do Paschoal, em 2006. Maurinho, segundo ele mesmo, não conseguiu dormir à noite. Fez três gols no maior ídolo do futebol brasileiro.

Do Guarani FC para o São Paulo FC
Entusiasmado, Maurinho esteve em São Paulo treinando no Corinthians Paulista e não foi aproveitado. O treinador Nilton, dos juvenis, colocou Maurinho para treinar quando o treino estava terminando. Maurinho não chegou a tocar na bola e isso o deixou revoltado. Ainda teve que agüentar gozação dos torcedores. "Eih, garoto você acabou com o treino". O filho pródigo voltou ao Paulista, de sua terra natal.

O Guarani, de Campinas, convidou o zagueiro central Guilherme, do Paulista, para realizar testes e como o moço era inibido pediu a Maurinho para acompanhá-lo. Guilherme desistiu, Maurinho não, treinou, agradou e foi contratado pelo Bugre, em 1951. Disputou o campeonato paulista de profissionais e se destacou. Despertou interesse dos times grandes, mas o São Paulo foi mais rápido e contratou o ponta magrinho, rápido, oportunista, dono de uma grande impulsão e bom de cabeceio.

Araraquarense na Copa de 1954
Maurinho fez historia no São Paulo FC. Campeão paulista em 1953, foi convocado pela seleção brasileira. Disputou a Copa do Mundo de 1954, na Suíça. Jogou contra a Hungria de Puskas, quando o Brasil perdeu por 4 a 2. Um araraquarense disputando uma Copa, fato que somente tinha ocorrido em 1936 com Bento Palamone.

Ainda no São Paulo, conquistou o memorável título de 1957. A final foi entre São Paulo e Corinthians, o tricolor vencia por 2 a 1 e o Corinthians pressionava obrigando o tricolor a recuar. De repente um chutão para a frente e Maurinho, que também tinha o apelido de flecha, arranca ficando na frente do Gilmar dos Santos Neves - "Escolha o canto, Gilmar", gritou Maurinho, e com toque sutil marcou: 3 a 1 (placar final). Gilmar correu atrás do Maurinho para agredi-lo, mas não conseguiu alcançá-lo.

Maurinho passou diversas vezes pela seleção paulista. Trocou o tricolor paulista pelo tricolor carioca. Estreou no Flu marcando dois gols, sem nenhum treino com os novos companheiros, diante do Paysandu, em Belém. O time do Flu foi de: Castilho; Jair Marinho, Pinheiro, Clóvis e Altair; Edimilson e Paulinho, Maurinho, Telê Santana, Valdo e Escurinho e logo no primeiro campeonato carioca Maurinho foi campeão, em 59. Do Flu, Maurinho foi para o Boca Junior e acrescentou no currículo o título de campeão argentino de 1962. Na Argentina, atuou ao lado de Ratin, Mazolini, Grillo, Roma, além dos brasileiros Dino Sani, Almir e Edson. Retornou ao Fluminense para tratar do joelho e acabou parando com o futebol, aos 34 anos.

Artes do filho pródigo
Dia 19 de setembro de 1956, no Pacaembu, Maurinho ajudou o tricolor a derrotar a Ferroviária por 3 a 1, na primeira participação grená na Divisão Especial. O tricolor foi de Bonelli; Turcão e Mauro; Esnel, Victor e Riberto; Maurinho, Gino, Zezinho, Maneca e Canhoteiro. No dia 14 de abril de 1957, em Araraquara, Maurinho aprontou mais uma arte em cima da Ferroviária marcando o gol da vitória, 1 a 0 Tricolor. A Ferroviária perdeu com: Basílio; Cardarelli e Helcias; Dirceu, Rodrigues e Itamar; Paulinho (Otávio), Cardoso (Gomes)(Walter), Bazani e Boquita. O tricolor venceu com: Paulo; De Sordi e Mauro; Sabará, Alfredo (Adhemar) e Riberto; Maurinho, Baltazar, Gino, Maneca (Sidney) e Canhoteiro. Árbitro: Catão Montez Júnior.

Bate-papo com Tito Neto, de A Gazeta Esportiva
Um interessante bate papo entre Maurinho e o saudoso repórter Tito Neto.

Qual a maior emoção da carreira?
Sem dúvida a vitória sobre o Corinthians, por 3 x 1, em 1957, que nos deu o título de campeão paulista.

O zagueiro mais difícil?
Nilton Santos, ele sabia tudo.

Os maiores craques, fora o Pelé?
Garrincha e Canhoteiro.

Maior personalidade que conheceu?
O Cantinflas, no México.

Quais são seus locutores prediletos?
O Fiori Giglioti e Osmar Santos.

Na música?
Orlando Silva, Helena de Lima, Elisete Cardoso e Alcione.

Lazer?
Pescaria, pescaria e pescaria.

Passagem engraçada?
Em Armsterdã fui a uma lanchonete a fim de comer um sanduíche com ovos fritos, enquanto espera a hora do vôo. Eu explicava, explicava e o garçom não entendia. Tive uma idéia. Fiquei de cócoras e comecei a imitar uma galinha botando. Todos os presentes caíram na gargalhada e o garçom rindo me trouxe os ovos fritos.

A família
Maurinho casou-se com Doralice, em 1952. A cerimônia foi na histórica Matriz de São Bento em Araraquara. O casal teve três filhos: Juniors, Márcia e Mônica. Os irmãos de Maurinho residem no Bairro São José. Cachimbo, sobrinho de Maurinho, defendeu o XV de Piracicaba. O jornalista do Correio da Região, Maurinho Januário, de Américo Brasiliense, adotou o pseudônimo devido a aparência com o tio famoso. Maurinho trabalhou no Banco do Estado, após encerrar a carreira no futebol, até aposentar-se. Faleceu em São Paulo, aos 62 anos, em 28 de julho de 1995.

Currículo do profissional Maurinho Raphael:

1953 - Campeão paulista, (São Paulo FC)

1957 - Campeão paulista (São Paulo FC)

1959 - Campeão carioca (Fluminense)

1962 - Campeão argentino ( Boca Junior)

1958 - Tricampeão pela Seleção Paulista

Fase áurea no São Paulo FC: Disputou 328 jogos entre 1952 e 1958. Marcou 113 gols.

Figura entre os maiores dez artilheiros da história tricolor.

Por Tetê Viviani                     Voltar ídolos

 

   

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